“Eu te amo, ouviu isso? Você carrega tantas dúvidas com você que o que eu sinto acabou virando uma. Eu não te entendo, Martha. Você sabe mal somar 1+1 e acha que só porque dá dois nós podemos dar certo. Martha, você sabe qual o seu significado na minha vida? Aposto que não, me faz de tapete quase sempre. Sim, eu estou bêbado, mas não há copo de cachaça que me ajude a ficar melhor. Tem ideia do que são 1 ano de idas e voltas? Talvez eu seja seu iô-iô. Tocou nossa música no rádio, e agora eu sei que a dor dessa separação tem melodia e letra. Você poderia voltar, to naquele velho bar, com um cigarro aceso e uma taça de vinho… Nesse exato momento não sei o que significo pra você, mas sei que o que significo não é muito. Não chore, se me amasse estaria aqui. Se for voltar, lembre-se: sua taça está cheia. Afinal, a esperança é a ultima que morre. Adeus ou tô de volta? Eu te amo, entendeu, Martha?”
Não é só você, ainda é nós, Martha. 

“Então. Qual seu nome? “Anabell.” Não, seu nome verdadeiro, o da carteira de identidade. “Ah. Tanto faz. Aquela pessoa não é a mesma que está aqui.” Ok. Eu respeito. É verdade que vocês não beijam na boca? “É. Nem pense nisso.” Você quer uma bebida ou um cigarro? “Não, obrigada. Larguei o cigarro faz onze meses. Você também deveria parar. E não bebo em serviço.” Relaxa, garota. Você não bebe nem coca? “Não tomo refrigerantes, eles engordam. Mas aceito uma água, se você tiver.” Tenho. Vou pegar pra você. “Que filme é esse?” Acho que é Encontros e Desencontros, da Sofia Coppola. Já passou trezentas vezes nesse canal. É legalzinho, até. “Eu acho essa atriz linda.” Scarlett Johansson. Ela é incrível. Gosto de mulheres de beleza não óbvia. Aquele tipo que se você procurar algum defeito, acha vários. Mas ainda assim. “O que você vê de feio nela?” Sei lá, o nariz. Ela parece um porquinho. Sua água. “Obrigada. É um nome interessante, ‘Scarlett’. Talvez eu troque o Anabell para Scarlett.” Não faça isso. Eu gostei de Anabell. E Scarlett não cai bem, sei lá, me lembra Escarlatina. “O que é isso?” É uma doença. Infecciosa, eu acho. Não sei direito. Mas eu gostei de Anabell. Então, Anabell. Como vão as coisas? “Como?” Sei lá. Me diz alguma coisa sobre você. “(Risos) Você sabe que podemos pular essa parte, não sabe?” Eu sei. Só que eu quero saber. O que você quer da vida ou como veio parar aqui. “Não quero nada dessa vida, a não ser… mudar de vida. Eu não desisti dos meus sonhos, mas às vezes acho que eles desistiram de mim. Cansaram de me esperar.” Há tempo, você é tão jovem. “E vim parar aqui porque você pediu uma morena de um metro e sessenta, mais ou menos, uns 23 anos, estilo clássico e sem muita maquiagem. Foi o que me disseram. É sua primeira vez?” Sim. Quero dizer, não. Já fiz sexo outras vezes, só que não com uma puta. Desculpa, eu não quis dizer isso. “Tudo bem. Eu sou isso, o que vai se fazer?” Ainda assim, estou me sentindo péssimo. “Não foi nada. Acredite, já passei por situações bem piores.” Você gosta? “De quê? Me prostituir? Não. Adoro sexo, mas na maioria das vezes não me divirto com isso. Os caras com quem quero dormir são decentes e não pertencem a esse meio. Era pra ser uma coisa, você sabe, temporária. Só que eu comecei a tirar dois mil por semana e o resto você sabe. Quando atendo uns gordos suados, velhos, grosseiros e infelizes é uma uma briga.” Sério? “Sim. Vou pra casa muito irritada, querendo sair desse inferno que eu mesma criei.” Imagino. “Você quer transar?” Não, na verdade. “Você não gostou de mim?” Gostei. Você tem uma feição bonita. Seu corpo é maravilhoso, até onde consegui ver. Adorei seus pés, são pequenos e bem cuidados. Seu cheiro é gostoso, também. “Obrigada. Mas?” Sei lá, não estou mais a fim. Acho que eu estava me sentindo meio solitário, meu telefone não tem tocado muito ultimamente. “Você vai pagar pra alguém falar contigo, é isso?” (Risos) É. Acho que sim. Patético, eu sei. É que, atualmente, encontrar alguém pra trepar anda mais fácil que alguém disposto a escutar você. No futuro sua profissão será extinta, e nas esquinas haverá pilhas de gente com bons ouvidos, anunciando uma hora de papo por cinquenta contos. O cafuné será o novo boquete. “(Risos) Não é o que fazem os analistas?” Verdade. Mas eles não têm seios bacanas, geralmente, o que certamente é um diferencial. O que eu quero dizer é que, de alguma forma, o mundo está cheio de virgens, todos eles esperando por uma boa trepada com amor. “(Risos) Tá bom. Mas você ainda vai me pagar, não vai?” Duzentas pratas. “Isso, duzentos. E o táxi. Duzentos e vinte.” Combinado, pode deixar. “Você sabe, eu preciso. Se não fosse isso…” Tudo bem, não encana. “Uma parte não é minha e a outra quero guardar para meu filho.” Você tem um filho? “Não. Ainda não. Mas quero, um dia. Não vou ser prostituta para sempre.” Torço por você, Anabell, se é assim que você quer ser chamada. “Como você foi atencioso e gentil comigo, pode me chamar de Letícia, é o meu nome de batismo.” Letícia. Bonito nome. Nunca conheci uma Letícia que não fosse uma bela garota. Você é uma bela garota, Letícia. “Obrigada. Você tem certeza que não quer fazer sexo?” Sim. Hoje não. Valeu. Se você quiser se sentir útil, pode lavar a minha louça. A empregada não apareceu. “(Risos) Eu lavo.” Obrigado. Eu odeio lavar a louça. Mas se não tiver vontade, se achar meio machista da minha parte, não precisa também. “Não, não, eu lavo. Não vamos fazer o negócio, então?” O clima se foi. A coisa mudou, acho que eu não conseguiria fazer sem beijá-la na boca. E não quero violar seus códigos de ética. “Certo. Outro dia eu volto, então. E aí a gente faz. Você sabe. Sexo. Se você quiser.” Hum. Não sei se pretendo gastar outros duzentos com isso. “E quem falou em dinheiro? Já tenho cinco dígitos na minha poupança. O que eu preciso é de um orgasmo sincero e um bom beijo na boca.” Se é assim, eu pago.”
Gabito Nunes.  

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